Já imaginou escolher um cordel dentro da geladeira?

Written by on 23 set de 2019

Você já imaginou encontrar no meio do mato, ou na ponta de rua uma geladeira transformada em estande com cordéis expostos para a sua leitura inteiramente grátis? A ideia é do jornalista e poeta Paulo Ernesto Arrais que transformou uma geladeira velha, que seria jogada no lixo, numa estante, onde foram expostas cerca de 100 cordéis. A primeira geladeira, com esse objetivo, foi instalada na Avenida Pedro Felício, no pé de um muro de uma casa residencial, nas proximidades do Clube Recreativo Granjeiro.

Ali, o transeunte tem oportunidade de conhecer a literatura de cordel. Basta abrir a geladeira que lá estarão dezenas de cordéis de poetas regionais e nacionais. E nem precisa pagar nada, mas são bem-vindos as trocas, doações e, principalmente, o compartilhamento das iniciativas voluntárias.

O ambiente é convidativo para uma leitura. A paisagem da encosta, o clima de pé de serra e a velha geladeira a inspirar histórias ocorridas na cozinha de casa ou na mesa dos bares. É o reencontro da tecnologia com a natureza, uma interatividade entre o novo, que se transmuda em arquivos de poesias e o velho, que resiste ao tempo.

O intuito, segundo Paulo Ernesto, é atrair novos e velhos leitores e valorizar, principalmente, a cultura popular regional. Membro da Academia dos Cordelistas do Crato, o Paulo Ernesto nutre uma verdadeira paixão por este tipo de cultura que está arraigada na alma da maioria dos caririenses.

Em parceria com o artista plástico Luiz Augusto, o “Guto”, a geladeira chama a atenção pelas cores. Na porta, um homem da roça, lendo um cordel. Na lateral, ruas de casas bem nordestinas. No interior, as grades servem de ganchos para segurar os cordéis. O próprio Guto, que também é cordelista, se encarregou de arrumar os folhetos, como a ave que aninha os filhotes para dormir.

“Transformar a velha amiga da cozinha em prateleiras para livros, é uma forma barata e de fácil adaptação de incentivar a leitura”, justifica o artista plástico. O colorido lúdico e atraente, que desperta curiosidades, é um dos pontos altos do projeto, que reaproveita o eletrodoméstico para torná-lo um ambiente voltado para a leitura.

“O intuito é fazer com que a comunidade abrace a ideia e adote a geladeira como bem público. Além do compartilhamento dos cordéis, é dado um novo uso a um eletrodoméstico que seria descartado no meio ambiente. Paulo justifica que o projeto tem outro objetivo: ‘despertar nas pessoas o senso de responsabilidade e honestidade’. Afinal, o sucesso vai depender da consciência de cada um, adverte”.

Antônio Vicelmo/Jornalista
Fotos: Paulo Ernesto


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