Riquezas do Cariri viram ilustrações pelas mãos de artista da terra

No berço da imponenteChapada do Araripe, o Cariri se notabilizou pelas belezas naturais, pelos prédios históricos, pela cultura popular, a fé e sua pujança. Numa rápida pesquisa na internet, qualquer um se encanta com fotografias do artesanato, da arquitetura, do reisado, das romarias, das belas quedas d’água, da fauna e da flora da região. Toda essa riqueza inspirou o artista visual e ilustrador João Eudes Ribeiro. Ele colocou no papel locais que considera marcantes.

Morador do distrito de Arajara, em Barbalha, João Eudes conhece de perto as belezas do Cariri, já que acorda todos os dias no sopé da Chapada. Com essa inspiração, desenha “desde que consigo me lembrar”, como ele mesmo descreve. Aos 29 anos, o ilustrador ganhou visibilidade, há pouco mais de dois anos, com a paleoarte e, mais recentemente, criando desenhos de patrimônios naturais da região, históricos e imateriais, além dos geossítios que compõem o Geopark Araripe.

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João Eudes Ribeiro inicia o processo criativo usando lápis e papel. Somente depois as ilustrações ganham coresFoto: Antony Thierry

Municípios

O seu mais recente trabalho é uma série com municípios do Cariri, ainda incompleta, na qual o artista visual destaca pontos turísticos do território. Até agora, homenageou Crato, Nova Olinda e Santana do Cariri. “Em todos esses desenhos, busco representar a minha própria visão sobre o que é a essência do lugar. Não é o elemento mais importante ou mais bonito, e sim o que me chama mais a atenção, seja o tipo de solo, vegetação ou arquitetura”, conta.

Um dos exemplos é o trabalho sobre o Crato. O ilustrador pôs no papel a antiga estação ferroviária da RFFSA, a Sé Catedral Nossa Senhora da Penha, a Cascata do Lameiro, formada pelo Rio Batateira, e o casarão da família Esmeraldo. Ao fundo, a encosta da Chapada do Araripe. “Para alguns desenhos foi necessário um trabalho de campo para entender melhor o lugar e poder transmitir a mensagem”, explicou João Eudes.

Nesta mesma série, o artista também destacou o município de Santana do Cariri, com o Museu de Paleontologia, que recebeu 27 mil pessoas no último ano, o Pontal da Santa Cruz, um dos pontos mais altos do Cariri e um dinossauro.

De Nova Olinda, ele trouxe a Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri, o Teatro Violeta Arraes, uma criança descendente dos índios Kariris e, ao fundo, padrões característicos do artesão Espedito Seleiro, além dos registros rupestres do Sítio Santa Fé, descritos pela arqueóloga Rosiane Limaverde, falecida em 2017.

Geossítios

Apaixonado pela região em que vive, João Eudes teve a ideia de criar a série ‘Nove Geossítios do Geopark Araripe’, que traz todos os geossítios presentes nos territórios de Barbalha, Crato, Juazeiro do Norte, Missão Velha, Nova Olinda e Santana do Cariri. “De início foram desenhos de dinossauros, depois desenhos que representassem as riquezas de cada município. Foi aí que surgiu”, pontua.

No geossítio Riacho do Meio, a sete quilômetros da sede de Barbalha, está um dos refúgios do Soldadinho do Araripe, ave símbolo da região, em risco crítico de extinção. Além disso, o lugar é composto pelas trilhas ecológicas, nascentes, bicas naturais e formações geológicas. É com o pássaro endêmico do Cariri em primeiro plano e a água ao fundo que este ponto turístico barbalhense é representado.

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O ilustrador coloca no papel seu olhar sobre a região. Os desenhos se transformam até em estampas de camisetas

Paleontologia

A Paleontologia sempre foi o maior foco do artista visual, mas apenas no fim do curso se deu conta de que deveria investir profissionalmente na área por haver uma demanda muito grande na região e a falta de profissionais neste setor. A Bacia do Araripe possui a maior reserva a céu aberto de fósseis do Período Cretáceo do planeta. “Então tornei a ilustração científica o meu objeto de pesquisa”, justifica.

A paleoarte é uma das vertentes da ilustração científica, sendo ela a responsável por ilustrar ambientes e formas de vidas extintas a partir do registro fóssil. João Eudes já fez desenhos de espécies descobertas na região do Cariri, como o Tupandactylus, Tropeognathus mesembrinus, Tapejara wellnhoferi, Santanaraptor placidus, Anhanguera piscator, entre outros.

O gosto pelo trabalho fez o artista visual explorar a modelagem em massa epóxi. Uma das peças feitas foi o Tropeognathus mesembrinus, pterossauro descoberto na formação Romualdo. Pintada com tinta acrílica, a peça está exposta no Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, em Santana do Cariri.

Os desenhos também foram comprados pela marca Ciências da Terra e estão sendo utilizados em estampas de camisas, que são vendidas no Museu de Paleontologia e também na sede do Geopark Araripe. Paralelo a isso, o ilustrador tem seus próprios prints, bottons e acessórios, além de revistas em quadrinhos vendidas pelo Coletivo Estação 9. Suas ilustrações também estão presentes no livro “Fosséis da Chapada do Araripe, Uma Odisséia no Cretáceo”, dos paleontólogos Alexander Kellner, diretor do Museu Nacional, e Álamo Feitosa, pesquisador da Urca.

Pesquisa

Álamo conheceu o artista visual João Eudes quando foi solicitado para dar suporte científico sobre o tema. Acredita que ele é vocacionado para a paleoarte. “É apaixonado pelo que faz. Uma das pessoas mais talentosas que surgiram nos últimos anos nessa área. Tecnicamente é perfeito e sabe escutar o pesquisador”, destaca. A paciência em ouvir o especialista faz toda diferença neste trabalho, segundo o paleontólogo. “Alguns levam pela imaginação, mas o João estuda muito e tem a noção da anatomia destes seres. Por isso é muito respeitado. Os resultados dele é o que a gente acredita serem mais próximos”, enfatiza.

Para desenhar um dinossauro, o artista busca o máximo de informação visual sobre a espécie, imagens de seus esqueletos e reconstituições já feitas. Geralmente, o ilustrador desenha o esqueleto completo do animal para trabalhar sua anatomia de forma mais correta, musculatura e pele. Quando não há esse material, realiza o trabalho a partir de fragmentos de fósseis.

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Nos cenários das cidades ou geossítios, o artista busca fotografias ou ele mesmo faz o registro

Muitas vezes, tem que pesquisar outras espécies com parentesco e que se assemelham. “Imagens de animais atuais me ajudam bastante nessa parte, principalmente fotografias de aves e répteis”, explica. Como foram extintos, todas as imagens de dinossauros vivos são especulação. “Tenho uma certa licença poética. Não dá para saber exatamente como eram, temos apenas as pistas dadas através dos fósseis”, complementa.

Como artista independente, João Eudes Ribeiro trabalha com encomendas e junto ao coletivo participa de eventos culturais, expondo e vendendo quadrinhos e ilustrações. Desde 2018, compõe uma das barracas da Feira Cariri Criativo, que acontece mensalmente no largo da RFFSA, em Crato.

Fonte: Diário do Nordeste

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